Quase que tinha
companhia...
Caminhada planeada: Campo do Gerês - Junceda – Pé de Cabril – Bouça da Mó –
Geira – Campo do Gerês.
Logo de manhã, (mais) uma falha de comunicação fez com que o meu
companheiro de caminhada Zé Pulga ficasse por casa e eu seguisse viagem
sozinho...
Carro estacionado junta à Porta do Parque no Campo de Gerês e caminhada iniciada.
Uma ave de rapina que andava junto às árvores rapidamente subiu para a
segurança das alturas aproveitando as correntes de ar quente enquanto
circundava acima de mim.
Dejectos de lobo em várias partes do início do trilho corroboravam os relatos
de pessoal local há uns meses atrás que diziam ter os lobos perto das casas.
Inicia-se a subida que havia de levar-me à Junceda com um sol muito quente
e uma t-shirt esticada por baixo do chapéu para proteger-me o cachaço e orelhas
de novo escaldão.
Quase que mudava a
rota...
Na Junceda, enquanto descansava à sombra e improvisava um estendal
para secar uma das t-shirts do suor, equacionei duas alternativas ao percurso
inicial: seguia o estradão até à Calcedónia e daí desceria para Covide, ou
enfrentava uma das minhas Némesis, descer da Junceda para a vila do Gerês num
percurso que há uns anos nos fez voltar atrás e desistir, e numa
outra ocasião, nos levou a descer em corta mato.
Quase não via ninguém
na Serra...
Tomada a decisão de continuar com o plano inicial vi um casal que percorria
o trilho da silha dos ursos e, já no Pé de Cabril, três indivíduos a fazer
escalada com cordas.
Quase que subia ao Pé
de Cabril...
Já lá estive, e adorei. A paisagem é deslumbrante e a sensação de estar no
topo é inebriante. Portanto, vamos lá subir!
Quem já lá esteve saberá que a dada altura temos que rastejar numa pequena
gruta de forma a aceder ao espaço entre os dois picos que permite a subida. À
medida que me aproximava lembrei-me de uma ocasião anterior com a Ugne e o
Senhor (dois companheiros de serra) e do medo do matulão com as cobras. Assim
que me baixei para entrar dou de caras com uma víbora cornuda com cerca de 1
metro, não crescem muito mais que isto... Ainda consegui tirar um foto antes
que fugisse para a segurança das pedras. Tentei convencê-la com o bastão
de caminhada a ficar mais um pouco mas a coitada deve ter ficado quase tão
assustada quanto eu...
Não foi preciso muito tempo para tomar a decisão de não rastejar para dentro
de um espaço onde sabia estar uma cobra venenosa portanto, há que seguir
caminho...
Quase que acabava a
caminhada...
Por esta altura o meu cantil estava com cerca de 1/4 de água. Comecei a
descer até um prado com nome engraçado -Tirolirão- e segui para a descida da
bouça da mó que me levaria ao estradão da feira e de volta ao carro.
Já tinha espreitado a carta militar e sabia que me esperava uma descida
íngreme. Vista no local pareceu mais. Mas desde logo a vegetação que se via ao
fundo deixou-me apreensivo.
Comecei a descer e o caminho começou a fechar. E à medida que
descia, mais o caminho fechava e mais complicada se tornava a navegação,
não estava fácil encontrar o caminho, nem com a ajuda preciosa do gps.
Um corta mato aqui, uns arranhões ali.
Até que a excepção se tornou regra e, a poucas centenas de metros do final
da descida dei comigo rodeado de vegetação sem ver trilho nem mariolas nem
local para pôr os pés...
O gps dizia-me que eu até estava em cima do trilho pelo que comecei a
lamentar não ter espreitado a data de realização do trilho no wikiloc...
Altura para parar e pensar, listar os factos tentando manter sangue
frio:
- Temperaturas nos 30 graus
- Cantil quase vazio
- Sem rede de telemóvel
- Cansaço acumulado por estar a poupar água há mais de uma hora
Vislumbrava duas opções:
1- Insistir na descida.
Esta opção tinha a vantagem de ser a mais curta, afinal de contas eu já via
a barragem e o estradão à distância.
Por outro lado havia o risco de poder estar a batalhar com a vegetação mais
uma hora para progredir apenas 50 metros e um risco acrescido de queda
(cheguei a estar junto a um precipício com uns 20-30 metros de altura sem
que me tenha apercebido).
2- Voltar atrás e sair da serra para Leonte.
Aqui a desvantagem era o esforço de voltar a subir para o pé de cabril
quando já estava a bater a exaustão.
Ao chegar lá acima podia sempre pedir água ao pessoal que escalava o cabril
e depois descer a Leonte chamando um táxi para me levar a Campo.
Acabei por tomar a decisão que julgo ter sido a mais sensata e iniciei o
regresso.
Nesta altura tive uma brecha de rede e recebi uma chamada. O sinal não dava
para estabelecer uma conversa mas permitiu enviar sms a dizer onde estava e o
que ia fazer para que, caso não desse notícias em 2-3 horas
fosse accionada ajuda.
Quase que
desidratava...
O cansaço/exaustão acumulados tornaram a subida muito lenta e fisicamente onerosa…
Por esta altura já só utilizava o fundo do cantil para molhar os lábios e
manter-me psicologicamente afastado do pensamento “não tenho nem uma gota de
água”, apesar de não serem muitas mais as gotas que restavam.
Pelo caminho perdi uma das tshirts que trazia e esqueci o bastão numa paragem
de instantes numa das poucas sombras existentes. O discernimento mental já não
estava a 100%...
Quase que conseguia
água...
Cheguei ao sopé do Cabril e os 3 escaladores estavam no topo a arrumar as
cordas e restante material.
A custo e com a voz alterada perguntei se iam descer para Leonte e se
tinham água. Responderam que desceriam mais tarde e, pensando que pedia
orientações, indicaram-me o caminho para Leonte. Agradeci de qualquer forma e
segui caminho.
Quase que bebia toda a
água da fonte...
Cheguei a Leonte com uns tropeções na descida e, enquanto os assalariados
do ICN cobravam as famosas portagens da albergaria que agora parecem
justificar-se para repor os Teixos, fui directo à fonte e bebi, bebi, bebi…
Quase que dava razão
aos maus agoiros...
Neste, como em qualquer outro desporto/actividade de lazer, há perigos associados e alguns factores de risco que os podem
potenciar.
É importante que os tenhamos presentes.
Neste caso, deixei que dois factores importantes coexistissem: o
desconhecimento do terreno (não conhecia a descida para a bouça da mó) e a
falta de recursos (neste caso a água). O facto de estar sozinho não ajuda em
nada e aumenta o risco, bem como o facto de estarem mais de 30 graus não ajuda
em nada e aumenta o risco.
Mas ficará para outra altura uma análise mais cuidada aos perigos e riscos
desta actividade.
Prefiro o Geres no Outono-Inverno, com outros riscos claro está.
Esta experiência não beliscou em nada o meu amor pela Serra, aumentou o meu
respeito. Voltarei, mais experiente, assim que possa.
Acabei o dia depois de quase 18km resgatado por uma carteira de fósforos :b
que me levou de volta ao carro.
Participantes: Rui
Cota mínima: +/- 640mts
Cota máxima: +/- 1180mts
Distância percorrida: +/-17,5Km
Tempo decorrido: +/- 6h30m


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